Morro Três Irmãos, Chapada Diamentina, Bahia, Brasil
Canon EOS 10D, Sigma 15-30mm EX, 1/20s f/16.0 iso200
Alain Briot é um dos mais bem sucedidos fotógrafos de natureza trabalhando atualmente nos EUA. Ele formou-se na Escola de Belas Artes em Paris, onde obteve o diploma de mestre em Belas Artes. Atualmente trabalha em seu doutorado.
Este artigo é o primeiro de uma série de nove ensaios focados nos aspectos estéticos da fotografia. O objetivo desta série é ajudar você a criar uma fotografia que seja agradável do ponto de vista estético: uma fotografia bonita.
Esta série de ensaios está relacionada com o Workshop Series de 2003-2004. Estes novos workshops se concentrarão em implementar, no campo e através de exercícios, os conceitos, técnicas e abordagens discutidos em meus ensaios. Juntos eles nos darão uma base sólida a partir da qual se pode refinar a habilidade fotográfica.
Este primeiro ensaio começa com uma introdução � série e continua com a primeira das nove áreas que abordaremos: Como ver fotograficamente.
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Primeira Parte - Como Ver Fotograficamente
1 - Introdução
Quando Michael Reichmann me pediu para escrever um ensaio sobre "estética" para o site, minha reação inicial foi "O que você quer dizer com estética?" Quando discutimos a idéia mais detalhadamente enquanto fotografávamos juntos no Escalante Grand Staircase National Monument e o Michael explicou melhor o que queria dizer com estética, eu continuei ligeiramente perdido e sem saber o que dizer sobre o tema. Mesmo agora, depois de ter entrado de corpo e alma neste projeto, ainda acho dificil escrever sobre este assunto que é claramente um aspecto essencial do meu trabalho.
Por que é tão difícil explicar as coisas do cotidiano, as coisas que fazemos de forma intuitiva, quase inconscientemente? A razão, creio, é simples: é difícil porque estas coisas vêm naturalmente, quase facilmente, sem que se tenha que premeditar sobre elas.
No meu caso há ainda o fato de ser difícil colocar no papel um sistema que foi desenvolvido durante anos através de tentativas e erros, anos de aprendizado sobre o que dá e o que não dá certo, até que um dia eu me peguei olhando para uma de minhas imagens e pensando "Eu realmente gosto desta aqui. Como consegui?" Conseguimos, eu e você, fico tentado a dizer, porque perseveramos, porque nunca desistimos, e porque nós amamos tanto a fotografia que, de alguma forma, conseguimos encontrar motivação e recursos financeiros para continuar, mesmo diante de resultados iniciais pouco satisfatórios.
Eu sou uma pessoa visualmente orientada. Tenho uma vasta experiência, não apenas em fotografia, mas também como artista visual trabalhando nas mais diferentes mídias. Embora tenha começado a lidar com fotografia em 1980, fui treinado como artista antes disso, em pintura e desenho, e pratico artes, guiado por meus pais, desde minha infância.
Ademais, sou focado em representar o que percebo como belo da forma mais estética que posso. Eu pratico estética diariamente, embora não chame isso de estética. Eu, na verdade, não tenho um nome para isso. Eu apenas crio imagens bonitas de lugares naturais.
Eu estou, portanto, buscando uma forma eficaz de ensinar aquilo que faço. Mas estou, também, preocupado em não transformar este assunto em algo muito complicado. Afinal, seria simples abordá-lo sob uma perspectiva teórica, usando cansativas e complicadas terminologias e criando um texto que, embora pudesse ser do interesse de alguns acadêmicos, não ajudaria em nada os fotógrafos que querem criar melhores fotografias.
Portanto, como se explica, do modo mais claro e conciso possível, algo que se faz inconscientemente? Bem, uma das maneiras é explicar como se faz, passo a passo, quebrando o tópico em grandes blocos. Esta é a abordagem que usarei nesta série de ensaios. Ela tem a vantagem de ser simples, de ir direto ao ponto e de se mover de um conceito ao outro de forma lógica e organizada.
Neste momento vejo nove áreas, todas relacionadas com estética, que juntas abrangem o meu trabalho quando fotografo:
- Como ver fotograficamente
- Como compor uma fotografia
- Como escolher a melhor objetiva para uma composição específica
- Como encontrar a melhor luz para uma fotografia específica
- Como escolher o melhor "filme" para uma imagem específica
- Como calcular a melhor exposição para uma cena específica
- Como decidir que fotografias devemos manter e quais devemos jogar fora
- Como criar a linha mestra de seu trabalho
- Como criar um estilo fotográfico pessoal
Nesta série de artigos eu vou falar sobre estas nove áreas, descrever minha abordagem pessoal de trabalho e as ferramentas que uso (e não são apenas câmeras, vocês vão ver). Usarei minhas fotografias como exemplos, escolherei imagens que tenham relação com o tópico sendo abordado e direi como e porquê foram feitas.
Finalmente, a organização desta série segue os passos que dou quando crio fotografias, passos estes que aconselho você a usar doravante: encontre alguma coisa que queira fotografar, componha a fotografia, escolha a distância focal, decida se a luz está correta, decida que filme usar, calcule a exposição correta, decida quais as fotos de que mais gosta e, finalmente, desenvolva uma linha central de trabalho e crie seu próprio estilo.
Se esta lista, este processo, parece um pouco assustador, não se preocupe. Era assustador para mim quando comecei e, de certa forma, ainda é. Tenha em mente que o objetivo destes artigos é acompanhá-lo passo a passo, e supri-lo de habilidades e técnicas que lhe permitirão trilhar a longa jornada que tem � frente e a longa lista de processos ai em cima. Esta lista existe apenas como um guia. Caminharemos por ela, um passo de cada vez, começando hoje com a primeira habilidade - ver.
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2 - Ver
O que estou querendo dizer aqui é ver fotograficamente, ou ver como uma câmera vê. Como aprender a ver como uma câmera é o objetivo deste ensaio.
Eu acredito piamente que não posso fazer uma fotografia de algo que não vi fotograficamente. Em outras palavras, eu preciso, primeiro, ver alguma coisa, perceber uma oportunidade fotográfica, antes que possa regular minha câmera e compor a imagem. Pode parecer óbvio, mas não é. Conheci muitos fotógrafos que "atiram a esmo", se me permitem a expressão, na esperança de que, após retornarem pra casa, encontrem "algo bom" entre a massa de originais que têm em mãos. Infelizmente esta abordagem usualmente resulta em desilusão.
Não quero dizer com isso que tirar muitas fotografias seja um hábito ruim. Muitos fotógrafos profissionais tiram muitas fotos e obtém excelentes resultados. No entanto, eles sabem como ver fotograficamente e não estão apenas atirando a esmo, esperando que alguma coisa dê certo. Meu comentário não está baseado em quantas fotografias se tira. Na verdade, é baseado em porquê e como se fotografa, e na premissa de que o que se vê é o que se fotografa.
Criar fotografias tem total relação com ver e, neste sentido, não é diferente de outras formas de arte em duas dimensões, como pintura e desenho. Criar fotografias é o mesmo que estudar e praticar "a arte de ver".
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3 - Abstraindo-se
Estou agora andando pelo campo na primavera, envolvido pelo chilro dos pássaros e pelo arôma das flores frescas. Uma brisa sopra, leve, fazendo galhos e folhas balançarem gentilmente. Me sinto ao mesmo tempo relaxado e energizado pelo calor da estação, pelo renascer e rejuvenescer da primavera.
No entanto, se vou compor uma fotografia que expresse como me sinto, preciso lembrar que nenhuma destas flagrâncias agradáveis, nada desta gentil brisa, nenhum destes sentimentos de pausa eterna que sinto serão transpostos para a fotografia. Nada disso estará presente na ampliação final a menos que eu, usando minha experiência e conhecimento de fotografia, consiga traduzir estas sensações não visuais em informação visual. Isso acontece porque, numa fotografia, apenas informações visuais estão presentes. O que permanece registrado na foto é o que podíamos ver na cena original. O que nossos outros sentidos nos disseram � perfumes, texturas, sons, emoções, � tudo isso se foi.
É possível traduzir estes outros sentimentos em elementos visuais? Sim, eu acredito que é possível, e o objetivo desta série de artigos é explicar como fazer isso. Porém, apenas muito estudo, prática e exercícios voltados a melhorar suas habilidades visuais garantirão sucesso. Este é, na realidade, um dos mais desafiadores aspectos da fotografia e o que separa os Mestres dos aprendizes, se vocês me entendem. Como dizia Ansel Adams: "Fotografe não apenas o que você vê, mas também o que você sente." Esta é certamente uma ordem difícil de se cumprir, mas não impossível.
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4 - Concentre-se
Concentre-se na faceta visual da cena. Como acabamos de ver, é fácil ser enganado pelos nossos sentidos e acreditar que o que nos transmite uma boa sensação, o que nos chega belo aos ouvidos, o que cheira bem, vai parecer visualmente bonito. Sabemos, agora, que não funciona necessariamente assim. O que chama nossa atenção quando todos os sentidos estão operando pode ser ou não o aspecto visual da cena.
Portanto, para criar fotografias bem-sucedidas, precisamos, neste momento, nos perguntar o seguinte:
1 - Há algo interessante, do ponto de vista visual, na cena que estou olhando?
2 - Se sim, então o que mais interessa visualmente nesta cena?
3 - Considerando que eu decidi fotografar esta cena, como posso transmitir com minha fotografia as sensações que estou tendo agora?
Para responder a estas perguntar devemos, primeiro, aprender a ver da forma como uma câmera vê.
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5 - Aprendendo a Ver em Duas Dimensões
Então, como se aprende a ver fotograficamente, do jeito que uma câmera vê?
A câmera vê de forma diferente de nós. Uma das principais diferenças é que a câmera tem apenas uma objetiva, enquanto nós temos duas. Temos visão binocular enquanto as câmeras (exceto as câmeras estéreo) possuem visão monocular.
O que isso significa em termos de visão? Significa que se não aprendermos a ver com apenas um olho � ou fechando um dos olhos ou olhando através do visor da câmera enquanto compomos a fotografia �, acabaremos com algumas imagens embaraçosas, como a do galho que sai da cabeça de uma pessoa. Neste exemplo, quando olhamos para a cena com os dois olhos, a árvore não parece estar nascendo na cabeça da pessoa porque a visão binocular nos permite calcular a distância entre a pessoa e a árvore. Mas a visão monocular remove todo o senso de distância � todo o senso de profundidade � deixando-nos apenas a altura e a largura e colocando a cabeça da pessoa e a árvore no mesmo plano de visão.
Uma impressão fotográfica tem apenas duas dimensões: largura e altura (20×25, 20×30, 10×15, etc.) Uma impressão fotográfica não tem profundidade física porque profundidade, a terceira dimensão, não existe fisicamente. Mas profundidade é algo que faz parte de nosso mundo e, portanto, é necessária para que uma fotografia representando este mundo faça sentido. Para que uma fotografia pareça realista e agradável aos olhos a profundiade precisa ser simulada. Se fossemos escultores não precisaríamos nos preocupar com nada disso. Teríamos largura, altura e profundidade como parte de nosso meio. Mas como somos artistas trabalhando com uma mídia plana, precisamos aprender a recriar a profundidade.
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4 - Recriando a Profundidade
Como podemos simular ou recriar a profundidade, a terceira dimensão, numa mídia de duas dimensões? Com a ajuda da perspectiva. Ok, ok, mas como usar perspectiva para recriar profundidade? Usando 3 técnicas simples:
A - Linhas convergentes
Todos já vimos fotografias de estradas que começam próximas a nós e se vão distantes, até sumirem. Estas fotografias criam um forte senso de profundidade porque as estradas atuam como linhas que levam nosso olhar para longe. A impressão (ou imagem digital em um monitor) ainda é absolutamente plana. Mas para os olhos parece que estamos olhando para uma cena que tem quilômetros de profundidade.
B - A Relação entre o Primeiro e o Segundo Plano (Grandes e Pequenos Objetos).
Sabemos que, para nossos olhos, objetos próximos parecem maiores do que objetos distantes. Por exemplo, um pinheiro parece gigantesco quando nos colocamos de pé a seu lado, mas parece encolher para o tamanho de um palito de fósforo quando visto de muitos quilômetros de distância. Colocar uma árvore como esta no primeiro plano da fotografia, ou apenas uma parte do tronco da árvore, e outra árvore no segundo plano, definitivamente dá ao espectador uma indicação de distância. Ao comparar o tamanho das duas árvores, o espectator consegue medir a distância de forma relativamente precisa, bastando para isso que esteja familiarizado com cenários naturais e com pinheiros. Claro que qualquer outra planta ou objeto pode ser usado da mesma forma, com o mesmo resultado. As objetivas grande-angulares são frequentemente usadas para este objetivo. No entanto, qualquer objetiva pode ser empregada porque o propósito é o que importa, não o equipamento. Eu já fiz, pessoalmente, relações de perto-distante tanto com objetivas grande-angulares como com teles.

Curva da Ferradura, Glen Canyon NRA, Arizona. Linhof Master Technica
4×5, Schneider Super Angulon 75mm, Fuji Provia. (ambas as fotos).

Estas duas imagens foram criadas em março de 2003 por ocasião da minha visita mais recente � esta grande locação. Eu primeiro criei o que considero a visão "clássica" da Curva da Ferradura, a imagem horizontal. Me dei conta, então, de nunca ter visto uma composição vertical desta cena. Percebendo que havia a oportunidade de criar uma nova imagem desta locação tão fotografada, além de uma relação primeiro-segundo plano, andei pela cena procurando por um elemento de primeiro plano. (Uma composição horizontal mostrando a relação primeiro-segundo plano na Curva da Ferradura é difícil porque quase todo o espaço na imagem é ocupado pela curva em si).
Depois de procurar por alguns minutos, achei uma formação rochosa com um formato que imita o aclive no centro da curva. Para mim esta composição oferece um senso de profundidade e distância muito mais forte do que a composição horizontal. Ela chega a me causar vertigem.
C - Superposições
A terceira técnica leva em conta uma regra simples: sabemos que objetos que estão na frente de outros estão fisicamente mais próximos de nós. Usando esta regra podemos propositalmente criar composições fotográficas em que certos objetos superpõem outros e com isso nos dão uma sensação forte de profundidade.
D - Nevoeiro
Usar névoa é uma outra forma de recriar profundidade. Sabemos, por intuição e experiência, que a neblina e o nevoeiro ficam mais densos na medida em que a distância visual aumenta. Objetos distantes, em condições de neblina, são mais difíceis de se ver do que objetos próximos. A névoa atmosférica, tão desprezada porque torna os objetos distantes difíceis de ver no verão (o Grand Canyon é um bom exemplo), também torna mais fácil mostrar que a beirada norte do Canyon (por exemplo) está bem distante da beirada sul (precisamente 25 quilômetros, na altura do Grand Canyon Village). Desse modo, a névoa nos ajuda a recriar profundidade numa mídia que é essencialmente plana.
E - Combinando as Técnicas Acima
Estas técnicas de criação de profundidade são frequentemente usadas de forma combinada. Eu já criei imagens com montanhas superpostas e em condições de nevoeiro (novamente, no Grand Canyon). Neste caso, as duas técnicas se fortaleceram mutuamente, resultando numa imagem que é visualmente forte e mais poderosa do que se apenas uma das técnicas tivesse sido empregada.
De forma análoga, objetos superpostos são frequentemente usados em conjunto com alguma relação primeiro-segundo plano. Por exemplo, uma planta no primeiro plano — que é enfatizada pelo uso de grande angular — pode ser propositalmente colocada de forma a cobrir parcialmente uma montanha no segundo plano. Ou, anda, esta mesma montanha pode ser vista através dos galhos de uma árvore, como no caso desta fotografia feita no Parque Nacional Zion:
The Watchman visto através da árvore Cottonwood, Zion NP, Utah.
Linhof Master Technica 4×5, Schneider Super Angulon 75mm, Fuji Provia.
Neste exemplo achei que apenas as formações rochosas (o Watchman) seriam insuficientes para criar uma imagem de sucesso. O céu estava legal porque não estava nem totalmente azul nem totalmente nublado, mas ainda assim algo mais era necessário.
Ao andar pela cena achei esta árvore através da qual pude enquadrar a imagem, uma vez que estávamos no inverno e a árvore não tinha folhas. Além disso a árvore se inclina ligeiramente para a direita, seguindo a linha dos penhascos que tombam para a direita também. Esta é uma composição atrevida que não enfatiza apenas a árvore ou os rochedos, mas que equilibra o interesse visual entre os dois.
No próximo capítulo, estudaremos a parte 2 desta série, "Como compor uma fotografia". Esta é uma das mais importantes - e também uma das mais desafiadoras - áreas da fotografia. Definitivamente um artigo que você não pode perder.
2003 Alain Briot
Beaux Arts Photography

O texto e as fotografias desta página são copyright
1995-2004 Michael Reichmann.
(Menos Três Irmãos, no alto da página, copyright Nelson Ricciardi)
Texto traduzido e publicado com autorização de
The Luminous Landscapes
Direitos reservados para a versão em português.
Leia o artigo original.
